21/08/2005 17:14
O ser e o ter
Loucos tempos em que ter a calça jeans da marca "x", com uma etiqueta bem enorme, significa ser pessoa "de atitude" - que atitude? A de gastar um salário mínimo numa peça de roupa?
Se tenho, sou. E não preciso argumentar, nem é necessário me apresentar, porque a minha figura fala por mim...
Realmente fala, mas fala o quê?
Qual o preço que se paga para ser, em nossa sociedade? O reconhecimento baseado no poder de compra, no poder de convencimento, enfim, no poder.
Se tenho o diploma da faculdade y, então sou bom profissional. Por outro lado, se não tenho diploma, só me resta contar com a sorte... Sorte?
Compactuo com isso a cada vez que me rendo aos encantos da moda da novela, que nego um olhar ao jovem que vende balas, a cada vez que acredito que ser legal é uma questão de ter (o carro, a casa, a boa aparência, a roupa da moda, a "atitude da moda", a gíria na ponta da língua, o livro de auto-ajuda que ensina como ser bacana, o namorado chato porém lindo, o cabelo perfeito que demora horas no secador e que encolhe ao menor sinal de chuva, a naturaldiade de zoar aquele cara que todo mundo zoa, o perfume caro da atriz famosa, a bolsa verde pistache, o celular que tirafoto/tem luz multicolorida/canta/dança/sapateia, ter assistido ao programa que todo mundo assiste...)
Mas o que tenho aprendido é que só tenho, realmente, aquilo que sempre posso carregar comigo, onde quer que eu esteja. Aquilo que se apresenta, independente da aparência. Aquilo que se acumula ao longo dos anos, em forma de aprendizado, de boas lembranças, de amizades. A posse a que estes loucos tempos modernos nos incita, acaba nos afastando cada vez mais do outro, da nossa realidade, enfim, nos afasta de nós mesmos, sustentando ilusões que só nos machucam.
Ilusões que nos impedem de perceber que ter tudo não quer dizer ser alguém.
enviada por jullye
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